sábado, 19 de novembro de 2016

DECORO TEATRAL DAS DEMORACIAS

“O que existe no puro decoro teatral das democracias são as minorias dirigentes que conquistam o Estado vacante e aí ocupam os postos de comando, seja diretamente, seja por pessoas interpostas. Ora, estas minorias que detêm as alavancas do Estado democrático não podem agir senão procedendo como se a democracia existisse. Elas na podem governar os cidadãos senão enganando-os e persuadindo-os de que eles detêm todos os poderes, quando na verdade eles estão privados do poder essencial de decisão e de direção detidos por eles teoricamente e que determina todos os outros. Em nenhum período da história o cidadão esteve mais desprovido de poder real do que na democracia moderna. E, entretanto, tudo se passa como se ele fosse real”.
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Marcel de Corte. Comunicação apresentada ao 2. Congresso do Ofício Internacional das Obras de Formação Cívica e de Ação Cultural segundo o Direito Natural e Cristão (Lausanne, 1965).

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

COMISERAÇÃO PARA COM OS CRIMINOSOS

“(...) A subversão da ordem, ou a desordem organizada e planificada atingiu a tais extremos, que os Estados modernos, como frutos agora maduros do positivismo e do materialismo, se servem do poder da coação psíquica, não para reprimir o crime e sim para sufocar o justo impulso da natureza humana ao uso da liberdade natural. Embora tal aspecto da realidade não seja visado pela concisa explanação de Herrera Figueroa, vem espontaneamente ao espírito a observação de que, nos Estados atuais, por um lado cresce a comiseração para com o criminoso e por outro aumenta a opressão sobre os justos. Isto é o resultado ainda bem vivo das escolas materialistas do século XIX, segundo as quais o criminoso pessoalmente é um irresponsável, vítima de taras hereditárias, ou do meio, ou da conformação física. Psicólogos, criminólogos, sociólogos pouco se interessam pela vítima do crime. Mas todos, como carpideiras filantrópicas, se curvam sobre o destino do criminoso; tratam de reajustar, de readaptar, de inserir novamente o criminoso no seio da sociedade; mas pouco se interessam pela viuvez e a orfandade em que um vulgar assassino possa ter projetado uma família. Por que tanto interesse pelo criminoso e tanto desinteresse pela vítima? (...)
Se se trata de instaurar uma criminologia existencial, isto é, que traga suas forças das raízes da vida, é preciso restabelecer o conceito da pena como castigo puro e simples. A existência da liberdade implica a responsabilidade do criminoso. Penso que a criminologia abandonou já as tolices de Lombroso e as baboseiras da psico-análise que contribuíram para justificar e absolver todos os crimes. Já é hora de não pensar mais nos termos do marxismo, segundo o qual o crime tem uma explicação econômica; como se o crime fosse produto do capitalismo e como se, nalgum paraíso comunista, o crime pudesse ser abolido. Durante muito tempo se abusou do senso comum com a teoria de que a sociedade é responsável pela conduta dos criminosos; então, a vítima indefesa, o honesto pai de família, o transeunte assaltado e assassinado, são responsáveis e culpados do ato do facínora? (...)”.
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Heraldo BARBUY [resenha da obra Psicología y Criminología, de Miguel Herrera Figueroa, in “Revista Brasileira de Filosofia”, vol. VII, n. 26, São Paulo, Instituto Brasileiro de Filosofia, abril-junho de 1957, pp. 260-264. Os trechos aqui citados se encontram às páginas 263 e 264].

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

ORAÇÃO DA FAMÍLIA

Por Dom Marcos Barbosa*

Bem debaixo, Senhor, da Tua asa,
Coloca a nossa casa.

Nossa mesa abençoa, e o leito, e o linho,
Guarda o nosso caminho.

Brote em torno o jardim frutos e flores,
Nossa boca, louvores.

Conserva pura a fonte de cristal,
Longe o pecado e o mal.

Repele o incêndio, a peste, a inundação,
Reine a paz e a união.

Bem haja na janela o azul do dia,
Na parede, Maria.

Encontre a noite quieta a luz acesa,
Quente sopa na mesa.

Batam à porta o pobre e o viajor,
E tu mesmo, Senhor.

Tranquilo seja o sono sob a cruz
Que a outro nos conduz.

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*in. Revista A Ordem, Rio de Janeiro, Vol. LIV - Dezembro de 1955 - N.6, p. 44.

LÉON BLOY FALA SOBRE A COMUNHÃO DOS SANTOS

"O menor dos nossos atos ecoa em profundidades infinitas e faz estremecer todos os vivos e todos os mortos, de modo que cada um dentre os milhões de seres humanos está, realmente, só diante de Deus. Tal é o abismo de nossas almas, tal é o seu mistério. Nossa liberdade é solidária ao equilíbrio do mundo e isto é necessário compreender para abarcar sem espanto o mistério da Reversibilidade, designação filosófica do grande dogma da Comunhão dos Santos. Todo homem que produz um ato livre, projeta a sua personalidade no infinito. Se dá de má vontade um níquel a um pobre, esse níquel fura a mão do pobre, cai, atravessa a terra, rompe os sóis, alcança o firmamento e ameaça o universo. Se comente um ato impuro, obscurece talvez milhares de corações que não conhece, que correspondem misteriosamente a ele e que têm necessidade de que esse homem seja puro, como um viajante que morre de sede tem necessidade do copo d'água de que fala o Evangelho. Um ato caridoso, um movimento de piedade verdadeira, canta em seu favor os louvores divinos, desde Adão até o fim dos séculos, cura os doentes, consola os desesperados, apazigua as tempestades, resgata os cativos, converte os infiéis, protege o gênero humano". 
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Citado por F. Peixoto Filho. “Léon Bloy ainda desconhecido”, in. Revista A Ordem, Rio de Janeiro, Vol. LIV - Dezembro de 1955 - N.6, p. 56.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A NOITE COM DEUS

Jorge de Lima*

Que canseira tremenda neste fim de tarde! Nem vontade de nenhum alimento nem de nenhuma distração a não ser o desejo de ficar a noite, toda esta longa noite convosco, Cristo Rei! A noite vem e os homens vão dormir mais uma vez e as noites serão cada vez menos, até a noite da Eternidade. A caminho da morte as noites vão, vão, vão! O silencio foi feito para a noite e a vigília na noite põe o homem mais próximo de Deus. Há pássaros que vivem de noite, há frutos que amaduram de noite, há flores que só dão de noite, há cantos que só se ouvem de noite. Cristo Rei que encheis o silencio e o espaço da noite e que estais comigo em todas as horas da noite e fechais os olhos dos que vão dormir e que vão morrer durante esta noite, Cristo Rei ficai comigo dentro de minha noite. Os que vão sem destino e sem poiso na escuridão e os que vão pelos cais, pelas ruas desertas, os que caem na sombra, os doentes sem cura precisam vos encontrar nesta noite longa, Cristo Rei, precisam vos encontrar nos seus leitos de morte, nas suas vielas, nas suas quedas da noite. A noite mansa desce como uma fronte cansada. Cristo Rei amparai a minha fronte cansada dos pesadelos da vida, das angustias da hora, da inquietação dos dias dos homens! Cristo Rei iluminai a escuridão de meu espírito, enchei totalmente o espaço imenso que a iniquidade do mundo põe no cérebro de todos os seres inquietos dentro da noite longa. Não terei medo junto de meu Rei! Há lobos lá fora! Cristo Rei não me abandoneis dentro da noite longa.
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*In. Revista A Ordem, n. 83, 1937, p. 88.

DEUS ESTÁ EM NÓS

Deus está em nós. O homem que procura a Deus não se sente mais isolado; o vácuo de sua vida é povoado pela presença do divino hóspede. Sofrerá aparentemente como os outros homens; porém, sabe que a "graça" indentificando-o com Cristo, há de realizar nele os mistérios do Crucificado, e vê na própria dor um elemento essencial da sua perfeição. Sofre para se parecer com Cristo. Sofre para destruir em si os laços que o prendem ainda a quem não é Deus. Caminha mais alegre; alguém o ajuda a carregar sua Cruz; tem por companheiro um amigo fiel.
E quando este homem se afastar da agitação exterior para se recolher em si mesmo, não encontrará apenas um "eu" vazio de tanto correr atrás de vulgaridades, um "blasé" feito para cousas que não consegue realizar, encontrará o mestre interior: seu Deus.
Quem medita sobre o mistério da Graça, que em nós é a participação da própria vida divina; quem reflete como a Fé e a Caridade conseguem penetrar as mais elevadas de nossas faculdades; transformar em divinas as nossas aspirações humanas; dar ideias divinas a nossa inteligência; fazer que o homem dominado pela Fé, pense naquilo mesmo em que Deus pensa, julgue as cousas como Deus as julga, veja como Deus vê; quem considera a Liturgia, os Sacramentos e sobretudo a Missa, envolvendo a alma toda e até o corpo numa atmosfera sacral, compreende que realmente é a vida que Jesus trouxe ao mundo.
Somente Cristo dá um sentido à Vida. Só Ele preenche as energias profundas de nossa alma. Só Ele povoa um coração. As almas de Fé sentem, como que experimentalmente, que sem Cristo tudo é noite, tudo é morte; que o mal pior é viver à margem do ideal e não sujeitar ao Mestre todas as fibras do seu ser.
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Frei Sebastien TAUZIN O.P. “A alma de nosso tempo”, in. Revista A Ordem, Rio de Janeiro, n.88, Março de 1938, p. 234.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

O REINO DA MENTIRA E DA DUPLICIDADE


A duplicidade é universal; ela nos cega, nos sufoca, nos desgarra, nos apodrece e dissolve todos os nossos pontos de apoio. Nossa época e nosso espírito, estão de tal modo gangrenados de mentira que contaminam até as instituições e os homens que desejariam ficar indenes e os leva a recorrer, na falta de coisa melhor, à mentira para lutar contra a mentira. Mentira na filosofia política que pretende sub-repticiamente substituir o espírito pela matéria, a qualidade pela quantidade, o Criador pela criatura, a razão por uma cega aritmética. Mentira da linguagem política e especialmente do calão parlamentar, tornado anfibológico e quase hermético e do qual nenhuma só palavra, notava Péguy, conservou sua significação natural. Mentira nas instituições políticas construídas “
en porte à faux” sobre fundamentos instáveis e ruinosos. Mentira em particular na Soberania do Povo, que desfigura a autoridade, de que faz uma escrava e o comando de que faz um despojo. Mentira na justiça que se torna a serva dócil da iniquidade triunfante, sem se preocupar nem mesmo com a evidência, prostituindo-se aos poderosos do dia e pretendendo impassivelmente converter a culpabilidade em inocência, a inocência em culpabilidade. Mentira na polícia que perverte a moralidade pública, que tem a missão de defender. Mentira na repressão e na vingança que se escondem sob a máscara da legalidade e na sombra dos cárceres. Mentira na interpretação do Bem Comum e do Interesse Geral, que já não são invocados senão para servir interesses de partidos, ou que se reduz a uma concepção sórdida, baixamente utilitária, que se confunde voluntariamente com o bem estar, as comodidades materiais e as satisfações dadas aos instintos gozadores das multidões. Mentira da lei, que já não é a ordem racional, imposta pelo bem de todos, mas a simples expressão, disfarçada em direito formal, da vontade do mais forte e entregue assim a uma perpétua instabilidade, a uma permanente injustiça. Mentira na liberdade, onde já não se quer ver o que ela é, isto é, uma lenta e penosa conquista e a faculdade sublime de ser causa, mas um dom gratuito e congenital e que se transforma em tributária do mal, em dissolvente da autoridade, em negação da responsabilidade. Mentira na Igualdade, em nome da qual se tende estupidamente dar a todos os homens, direitos, estatutos e satisfações uniformes. Mentira na Fraternidade, que se orgulha de tornar inútil a Caridade e nada mais faz do que renovar incessantemente o drama de Caim e Abel. Mentira na Moral, privada de sua base e de seu fim e tornada puramente fictícia. Mentira no hino universal entoado à apoteose da Pessoa Humana, cuja dignidade nunca foi tão desconhecida. Mentira na educação, que não passa d’um entulho, sem nenhuma ação formadora e deixa portanto de merecer o nome que se lhe atribui. Mentira no crédito que o Estado confunde abertamente com a espoliação e o roubo. Mentira na moeda, cujo valor real está num desequilíbrio cada vez mais completo com o valor aparente e tende irresistivelmente para o zero. Mentira, direi eu, até nas orações que certos políticos, que se pretendem religiosos, dirigem publicamente aos Céus pela salvação de um Estado que é a negação e a violação dos direitos divinos, pois, segundo a grande palavra de Bossuet, Deus se ri das suplicas que se elevam até Ele para desviar as desgraças publicas, quando não nos opomos ao que se faz para atraí-las. Mentira, para coroar o todo, no comportamento dos melhores que julgam, sob o pretexto de evitar um mal maior, dever pactuar com o falso, arvorar opiniões que não são as suas e dizer-se o que não são. Mentira, sim! Até na verdade, à qual se incorpora sistematicamente uma parte de erro, mentira no erro o qual se incorpora sistematicamente uma parte de verdade, alienando assim o espírito dos homens, de tal modo que aos olhos de grande número elas se tornam praticamente indiscerníveis, intercambiáveis. Perversão e confusão, tornadas tais que, mais cínico do que Pôncio Pilatos, um parlamentar francês, sem suscitar reprovação alguma, pode proclamar: ‘Mais vale unir-se ao erro do que dividir-se na verdade’.
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Marcel de la BIGNE DE VILLENEUVE. Satan en la Ciudad, Buenos Aires: Nuevo Orden.